20/10/2017

Resenha | Niguém Nasce Herói


Ninguém Nasce Herói

Autor: Eric Novelo
Editora: Seguinte
Páginas: 378


Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer. Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo — e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.

Falar de Ninguém Nasce Herói sem falar de política é complicado, mas o livro de Eric Novello é muito mais do que isso. Você vai entender melhor enquanto eu te conto essa história arrebatadora. Ninguém Nasce Herói é uma distopia, mas não uma distopia que se passa num futuro longínquo, mas sim num futuro tão próximo que é possível apontar as causas que levaram o nosso país ao ponto que é descrito no livro na nossa própria realidade. E isso é muito assustador!


Nosso herói se autodenomina Chuvisco. Ele mora em São Paulo e trabalha como tradutor. Ele lida desde criança com catarses criativas que é quando a sua imaginação toma conta superando, às vezes, a realidade. Ele se tratou com o Dr. Charles e recebeu alta, porém a situação do país faz com que essas fugas da realidade voltem a acontecer com mais frequência.

"De acordo com o psicanalista, adotei uma espécie de fuga reversa. Enquanto a maioria das pessoas usa a fantasia como uma folga dos problemas da realidade, eu fazia o contrário: criava um mundo tenebroso para que a realidade não fosse tão assustadora assim."

O país passa por uma situação crítica, principalmente para as minorias. Um fanático religioso chegou à presidência e conseguiu dominar o congresso através de várias manobras políticas. Essa nova liderança estimulou o surgimento de grupos de ódio que perseguem negros, homossexuais, transexuais, praticante de religiões afro-brasileiras entre outros.

Entendeu agora porque não tem como falar de Ninguém Nasce Herói sem falar de política? Donald Trump incentivou o preconceito contra os homossexuais e imigrantes com suas declarações descabidas. Aqui no Brasil há políticos, como Bolsanaro, que também incentivam o preconceito contra a comunidade LGBTQ+, por isso a distopia criada por Eric Novello é tão apavorante.

O governo acaba de anunciar um Pacto de Convivência, como um sinal de paz e o fim da perseguição contra as minorias e as pessoas com ideias contrarias aos que apoiam o governo. Porém, Chuvisco e seus amigos não acreditam muito nesse ato de bondade do governo.

Achei que não fosse gostar do livro por pensar que a história seria uma crítica social e política ao mundo atual (não gosto muito de histórias assim), mas Eric Novello
consegue criticar essa situação sem que o foco principal seja a política. O foco é a vida de Chuvisco e de seus amigos que tentam viver em uma sociedade amedrontada. 

"Laços afetivos são uma ferramenta valiosa, Chuvisco. Saiba em quem confiar e guarde isso em um lugar seguro dentro da cabeça."

Amanda, Cael, Pedro e Gabi sempre foram próximos de Chuvisco, mas conforme a situação do país piorava, foram se tornando mais afetuosos e unidos, apesar das diferenças deles. Acompanhar essa relação é o que torna esse livro excelente. Além é claro, da escrita fenomenal do Eric Novello. Virei fã!! As catarses criativas funcionam como um realismo fantástico para a história e é uma sacada brilhante do autor.

Sofri, ri e me apaixonei por cada um desses personagens. É um livro que deve ser lido não só por causa dos debates que gera, mas pela história emocionante.

Um dos melhores de 2017.

André | Garotos Perdidos. Todas as crianças cresceram e eu continuei sendo um Garoto Perdido. O trabalho e as obrigações da vida nos afastam da criança que fomos um dia, mas quando abro um livro ou começo a ver um filme percebo que nunca deixei a Terra do Nunca. Seja bem vindo ao mundo dos Garotos Perdidos.


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