27/05/2015

Resenha | Alif, O Invisível

Alif, O Invisível
  • Autor: G. Willow Wilson
  • Editora: Rocco
  • Páginas: 352
Autora de graphic novels aclamadas e criadora da primeira heroína muçulmana dos quadrinhos, pela Marvel Comics, além do livro de memórias A leitora do Alcorão, a norte-americana convertida ao islamismo G. Willow Wilson dá vida a um jovem hacker vivendo num estado de exceção no Oriente Médio em seu premiado romance de estreia, Alif, o invisível. Primeiro lançamento de 2015 do selo Fantástica Rocco, o livro conquistou o World Fantasy Award e rendeu à autora comparações com escritores como Philip Pullman, Neil Gaiman e J.K. Rowling. Na trama, teologia islâmica, vigilância eletrônica e os acontecimentos da Primavera Árabe se mesclam para tecer uma rica narrativa, na qual o cotidiano colide com o fantástico e o mundo físico com o digital.

Resenha feita pela colaboradora Pâmela Fardin

Alif, o invisível é um livro que impressiona de primeira: já traz na bagagem (na orelha do livro, melhor dizendo) a história de uma autora que chama a atenção. G. Willow Wilson, uma americana convertida ao Islã. Vencedoras de diversos prêmios - a maioria relacionada à quadrinhos - onde já escreveu tanto para a Marvel quanto a DC. Dentre seus roteiros famosos, estão X-men, Miss Marvel (o primeiro personagem muçulmano de quadrinhos a ter sua própria revista!), Superman e Cairo (selo da Vertigo). Fiquei bem entusiasmada com o que veria dentro de um livro escrito por ela, já que a reputação a precedia, claro. E posso já dizer de início que as expectativas foram alcançadas.


Em Alif, o invisível, temos um universo distanciado ao nosso principalmente pela cultura. A história se passa nos Emirados Árabes, onde Alif (a primeira letra do alfabeto árabe, seu nome de disfarce) é um hacker, que oferece serviços de proteção à grupos revolucionários islâmicos que atuam contra o governo. Dentro dessa perspectiva, percebemos o quão diferente a vida lá pode ser. O ponto principal do conflito se dá quando Alif, apaixonado por Intisar - uma garota que ele conheceu online - foi prometida à um nobre sem o seu consentimento, fato muito comum naquela realidade até hoje. Ele se decepciona com algumas situações envolvidas a isso e decide criar uma espécie de software que pode fazer qualquer um "se apagar" da Internet para uma outra pessoa. Isso teoricamente, seria impossível. É aí que ele se põe no rastro da Mão, uma entidade do Estado responsável por rastrear e sumir (literalmente) com a pessoa causadora do acontecimento e seus envolvidos.

Rick Riordan (sim, ele mesmo, o escritor de Percy Jackson) disse em sua resenha do livro no Goodreads (leia aqui em inglês), que é realmente difícil ver um livro ambientado no Oriente Médio que é acessível ao Ocidente e simpaticamente bem informado. Concordo. G. Willow Wilson traz em seu livro uma responsabilidade de transmitir a realidade islâmica em tempo real, e que na minha opinião, consegue majestosamente bem, de forma clara e concisa. Ele arrisca em vários aspectos, como por exemplo, nas partes que envolvem conteúdos digitais, relacionados a hackers, Internet e softwares de programação. Não sei até que ponto as informações apresentadas são verídicas, porém em alguns momentos me senti um pouco perdida por não conhecer o dialeto. Todavia, quando a história "pega o fio da meada", nos vemos entrelaçados na trama querendo participar cada vez mais com o protagonista naquela maluca aventura.

Da mesma forma, a autora como sendo precedida da Ms. Marvel, não deixa este livro para trás no quesito força feminina. Dina, amiga de Alif, se faz bem presente na história, como a voz da razão (rs) em algumas situações. Porém, a forma como a mulher é tratada no Oriente Médio ainda traz sérios questionamentos, que o livro coloca nas inferências do leitor. Alguns momentos são extremamente machistas, mas não por culpa de Wilson. Para mim, sua intenção foi realmente colocar tais ocasiões na história de propósito, nos forçando a refletir sobre isso. É polêmico, mas é necessário se pensar sobre o assunto. Será que as mulheres continuam a serem tratadas assim indiretamente - não só no Oriente Médio, que consideramos um caso extremo - mas aqui, na atualidade, no nosso Brasil? Ou como será que elas continuam sendo retratadas na literatura? É uma boa pergunta para se fazer, pois uma série de problemas continuam nas entrelinhas.

"Se a capacidade do homem para o fantástico tomasse o máximo da sua imaginação como sua capacidade para a crueldade, os mundos, vistos e não vistos, seriam diferentes.

Cheio de quotes fortes, posições que nos fazem refletir, colocado dentro de uma cultura e religião ainda desconhecida para muitos de nós; Alif, o invísivel é uma ótima chance para qualquer um que tiver interesse em uma história diferente e espirituosa. Outra boa pedida também é conhecer a personagem Miss Marvel. Mesmo ainda não sendo publicada no Brasil, vou dar um jeitinho de ler e conhecer as outras visões da autora. 



Pâmela, capixaba, 21 anos e Estudante de Psicologia. Bookholic, apaixonada por músicas lindas. Maratonista de seriados de carteirinha, companion perdida do Doctor e seguidora de Sherlock Holmes, Patrick Jane e Cal Lightman. Pensa em um dia conhecer o Reino Unido e é fã de uns caras conspiradores que tocam em uma banda chamada Muse.

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6 comentários:

  1. Pâmela!
    O diferencial do livro me parece mesmo por ter como pano de fundo os Emirados Árabes.
    Me parece uma leitura rica e diferenciada, tanto pela cultura, quanto pelo enredo e isso me causou curiosidade.
    Parabéns pela resenha.
    “Os homens não desejam aquilo que fazem, mas os objetivos que os levam a fazer aquilo que fazem.”(Platão)
    Cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Oi Rudynalva! Com certeza. A leitura vale por esse conhecimento adicional que a autora traz, adorei esse pano de fundo :)
      Obrigada por comentar! :D

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  2. Sabe, eu acho que sim. As pessoas dizem que não mas o machismo esta sim por ai, em todas as partes. E embora o livro me parece interessante, sinceramente não é algo que me instigue tanto assim a ler. Gosto desta pegada de livros pra refletir, só que mais focado no drama o que não me pareceu haver tanto nesse. Por isto passo.

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    1. Ei Liih! Com certeza. Continua muito colocado nas entrelinhas, que às vezes passa despercebido até para as mulheres. O livro tem sim um pouco de drama, mas como você supôs, é mais carregado de ação.
      Valeu por comentar! :)

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  3. Oi Pâmela!
    Quando li a sinopse do livro eu não fiquei muito interessada, mas curiosa sobre o trabalho da autora. Agora, além de querer conhecer o trabalho dela com os quadrinhos, também quero ler Alif, o invisível, principalmente por já saber que a cultura e sociedade do oriente médio foram bem retratados. Sua resenha ficou ótima!
    Bjs

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    1. Ei Evelise! Sim, amei essa perspectiva da história. Quando as férias chegarem já sei qual quadrinho procurar primeiro hahaha
      Beijo!

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